terça-feira, janeiro 25, 2005

Fácil / Difícil

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É tão fácil magoar as pessoas que nos são mais queridas, aquelas por quem nutrimos verdadeira e sincera admiração. Será, no entanto, por isso que, a essas mesmas pessoas, lhes seja assim tão difícil perdoar?
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O Puzzle pt.3

Como que, tomado por vida própria, meu olhar abandonou o miúdo sem face, planou sob as demais crianças e suavemente pousou nos outros elementos vivos da gravura. Os cães. Os cães malhados. Estes, não haviam dúvidas, saltitavam alegremente, por entre os catraios. Rolavam na relva galhofeiros tornando suas caudas felpudas, espanadores desenfreados. Via agora perfeitamente. Os cães estavam radiantes. Desmesuradamente radiantes. A minha pulsação disparou. Devolvi de novo o olhar ás crianças da gravura. Mais uma vez. "Que seja a última", murmurei. Começava a ser primordial descobrir o que se estava a passar ali mesmo à minha frente. Que raio de enredo era este onde me via envolvido? Pela primeira vez considerei que, a ausência da peça chave deste puzzle, não teria sido um lapso, mas antes, uma jogada, a meu ver, de muito mau gosto, da empresa fabricante deste quebra-cabeças. Mas porque que raio não me ofereceram antes um puzzle do Mordillo? Ou outra coisa qualquer, meu Deus? Uma bola de futebol, um disco, um instrumento musical, qualquer coisa, mas nunca, mas mesmo nunca, um puzzle incompleto com um miúdo sem face, crianças assombradas e cães a bailar, num conjunto sinistro, que me atormentava cada vez mais, como o pior dos pesadelos.
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quinta-feira, janeiro 20, 2005

Numerologia

Durante os últimos anos da sua carreira, Elvis Presley iniciava os seus concertos com o tema do genérico do filme 2001 – Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick ( Also Sprach Zarathustra , de Richard Strauss). Questionado sobre o facto, o Rei respondia que embora não o soubesse explicar, pressentia que o número 2001 era muito importante para a sua vida. Elvis morreu no dia 16 de Agosto (mês 8) de 1977.
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Aparentemente nada de anormal até alguém se ter lembrado de somar estes três algarismos.
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Adaptação de um artigo do Blitz de 18-01-2005

quarta-feira, janeiro 19, 2005

O Puzzle pt.2

Durante anos me questionei o que faria com que os miúdos da gravura olhassem daquele modo para o “miúdo sem rosto”!? Seria ele, deserdado pela Natureza, infeliz portador de um fácies asqueroso? Um aspecto hediondo? Ou por outro lado, lembro-me de pensar, estaria a chorar? Sim, podia ser isso. Podia ser dor. E assim seria angústia o que os miúdos da imagem carregavam no olhar. Impotentes por não poderem ajudar. Convenci-me. Era isso! Só podia! Dor. Angústia. Dor. Angústia. Dor. Culpa! Culpa? Estremeci. Sim, era de ponderar também. Malditos! Podia ser realmente a Culpa que os afligia. Não é novidade o quão as crianças podem ser cruéis. Aproximei o mais que podia o olhar da gravura. A ilusão de tranquilidade desvanecera-se. Senti pena do miúdo sem rosto. Do miúdo que levava as mãos à cara que eu não via mas que era alvo de chacota das restantes crianças. Alguns sorriam. De maldade imaginei. Malvados. De súbito algo houve algo que me chamou a atenção. Algo que sempre lá esteve mas que a minha imberbe e superficial análise não deixara ver. Algo vivo. Algo bom.

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terça-feira, janeiro 18, 2005

Pensamento

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Quando um objecto me repugna, converto-o em tema de estudo, forçando-me a extrair dele um motivo de alegria.

Marguerite Yourcenar (1903 - 1987)
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domingo, janeiro 16, 2005

Carta aos meus Pais

Queridos pais
Estou a adorar a Tailândia. Decidi escrever-vos, no caso de verem as imagens do Tsunami na televisão e ficarem preocupados. Não há motivo para tal. Conheci uma miúda fantástica aqui em Phuket. Chama-se Sunika e perdeu os pais na enxurrada.
Antes que me esqueça, avisem a mãe do Leonel, que ele não regressou da aula de surf, mas não alarmem a senhora, pois não foi o único. Para mim é que tem sido aborrecido pois o Leonel era um tipo com piada. Até as recepcionistas do hotel sentem a falta dele. Pelo menos uma, pois as restantes, ninguém mais as viu.
Do local de onde vos escrevo dá para ver a praia, ou o que resta dela, e posso garantir-vos que as coisas voltam lentamente ao normal. O areal está repleto de gente, na sua maioria cadáveres, mas há também pessoas a fazer o reconhecimento dos corpos. Carpe Diem. Provavelmente depois de lanchar darei lá uma saltada para ver se encontro o Leonel.
Felizmente para mim, na altura do maremoto, estava numa festa privada, no décimo andar do hotel. Fizemos inclusive, um concurso de “Miss T-shirt Molhada”. Foi impecável e ainda bem que filmei tudo. Estiveram aqui, ainda agora, uns tipos da TVI que me perguntaram se tinha captado imagens da onda gigante, ao que lhes respondi que apesar de não serem gigantes, as mamas da vencedora eram colossais. Galhofa total. Gajos do caraças!
O povo daqui é que não é tão calmo como disse o agente de viagens. Andam muito exaltados. Apenas a Sunika me parece mais tristonha, e nem os desenhos que lhe fiz no gesso que tem em ambas as pernas, a anima.
Quem anda incansável é a malta da AMI. Hoje de manhã andei com eles à procura de sobreviventes e foi graças à minha ajuda que descobrimos, sob os restos de uma bomba de gasolina, um nativo soterrado. Eu tinha pedido ao condutor para parar o jipe, pois queria urinar, e foi aí que ouvi o berro do Yakiko. O jipe tinha parado mesmo em cima da bacia do rapaz. “Sorte de amador”, felicitaram-me os da AMI. O Yaikiko estava em muito mau estado, ensopado em diesel, mas feliz por me ver. Enquanto o resto da equipa içava as pedras que o cobriam, acendi um cigarrito e dei-lho para relaxar. Não contava era que ele pegasse fogo assim de repente. Felizmente havia um extintor no jipe e rapidamente solucionamos o problema. Acho no entanto que o Yaikiko vai ficar esquisito até o cabelo lhe voltar a crescer.
Bem não vos maço mais, vou continuar a fazer companhia à Sunika, dar-lhe força, falar-lhe de vocês e da importância que os pais têm na vida de qualquer jovem. Adoro-vos meus malandros.
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Beijos grandes
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Elliot
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P.S. Informem o Rui Miguel que quando coloco o tema “Go with the Flow” dos Queens of the Stone Age, o pessoal daqui reage negativamente.
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quinta-feira, janeiro 13, 2005

O Puzzle

Era e seria por mais alguns anos, criança, quando por alturas de um aniversário, tive como prenda, um puzzle! Recordo-me como se fosse hoje. Por experiência posterior, dos muitos que fui adquirindo ao longo da minha adolescência, sei agora que aquele era dos mais complicados. Daqueles cuja imagem final, era somente obtida, após a feitura do dito. Sem o habitual apoio gráfico. Pus mãos à obra. Não foi fácil confesso. Mas difícil foi chegar ao fim e ver que faltava uma peça. E essencial. A imagem era pastoral. Representava uma cena na montanha. Montes verdes, alguns cães malhados e crianças a brincar. Tudo normal, não fossem as feições dos miúdos. Todos em uníssono olhavam num misto de assombração e curiosidade para a criança do centro da imagem. Exactamente aquela, cuja omissão da peça do puzzle, não me deixava ver a face. Estranhei... Voltei a procurar o maldito pedaço de imagem que faltava, mas nada. Percebia que aquela criança, fundamental no argumento da gravura, levava as mãos, também não visíveis, ao nível da cara, mas nada mais para além disso.
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Pespectiva para uma Morte pt.4

O pequeno-almoço é para mim a refeição mais importante do dia. Gosto de o tomar com calma, relaxado, nem que para isso tenha de acordar um pouco mais cedo. Hoje, não foi excepção. Após o duche preparei vagarosamente os meus flocos da Kellogs, liguei a telefonia e como de costume, como se de um ritual tratasse, encostei-me ao parapeito da solarenga janela, a observar o acordar da cidade, levando de quando em vez colheradas semi-cheias à boca. No entanto, hoje algo quebrara esta gostosa rotina. A rádio não passara a música habitual. Aliás, não passara música alguma. Hoje debatia-se algo. E num tom grave. Pousei a tigela da Habitat na mesa e subi o volume. Um porta-voz da PSP falava cauteloso. Alertava os cidadãos, no sentido de evitarem sair de suas casas, sozinhos, a partir das 22 horas. Por causa dos crimes. Os crimes que nos últimos meses alteraram hábitos desta, anteriormente, pacata cidade. Os crimes que tomaram de assalto os media, que, já há algumas semanas, não regateavam nos mais macabros adjectivos, o serial killer, que matara de forma selvática e indiscriminada, as suas, até à data, 11 vítimas.
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Desliguei a rádio, peguei na tigela da Habitat e não fiz naturalmente caso.
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Abri os olhos.
Com dificuldade, dentro da mala daquele carro, que a cada segundo me parecia mais pequena, sufocante, consegui vislumbrar nas centenas de recortes espalhados, que as autoridades não possuíam a menor pista para identificar o psicopata. Seria este cenário onde me encontrava agora, suficientemente válido para ser considerado uma pista? Engoli a custo.
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quarta-feira, janeiro 12, 2005

Não aconselhável a pessoas sensíveis


Num dia quente de Verão, com os termómetros a registar os 37º, um menino de 10 anos, de aparência humilde, entrou, sozinho, na gelataria que há muito lhe habitava os sonhos. Timidamente, como se não merecesse ali estar, escolheu a mesa mais ao fundo da sala e aguardou a empregada.
-“Quanto custa um Sundae ?" - perguntou.
-“Um Euro" – respondeu-lhe a jovem funcionária.
O menino puxou das moedas do bolso, e durante breves segundos, contou-as.
-“Bem, e quanto custa o sorvete simples?" voltou a questionar.
Nesse momento, estavam já outros clientes à espera de serem atendidos e a empregada perdia a paciência.
-"75 cêntimos" – respondeu-lhe, de forma brusca.
O menino, uma vez mais, contou as moedas e disse:
-“Vou querer o sorvete simples, por favor.”
A rapariga trouxe-lhe então, numa pequena taça, o sorvete simples. Colocou, também, a conta na mesa e regressou para junto do balcão. O menino, feliz, terminou vagarosamente o gelado. No fim, tirou as moedas do bolso, colocou-as ordenadamente na mesa, levantou-se e saiu. Quando a empregada voltou, pegou no dinheiro e de súbito, sem nada o fazer prever, começou a chorar à medida que ia limpando a mesa, pois ali, ao lado da pequena taça, estavam dez moedas, que juntas, perfaziam o valor de um Euro. Lá fora, seguia feliz, o menino que não pediu o Sundae pois queria que sobrasse gorjeta para ela.
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adaptação de um texto recebido por mail em 10-01-2005
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terça-feira, janeiro 11, 2005

Pensamento

Não leves a vida muito a sério; não vais sair vivo dela.

André Maurois
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Momento genial de inspiração

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segunda-feira, janeiro 10, 2005

O Czar e o Falcão

Um certo dia, o Czar da Rússia aprestou-se para uma caçada, levando no ombro – como era seu hábito – um falcão que nunca o abandonava.
Depois de uma árdua cavalgada e já tendo abatido muita caça, o Czar procurou uma sombra aprazível onde pudesse descansar. Sentia a garganta seca e rezava por encontrar uma fonte onde pudesse matar aquela sede.
Esporeou o cavalo e procurou ainda por longo tempo, até que encontrou uma bica de água escorrendo de uma penedia. Colocou uma pequena taça sob o fio que caía e esperou que enchesse. Mal se preparava para beber, e ao pegar no copo, eis que o falcão esbracejou as asas e o entornou.
O Czar quis encher de novo a taça e, mal achou que já havia o suficiente para beber, uma vez mais o falcão, abrindo as asas em jeito de levantar voo, a entornou.
Contrariado, o Czar encheu a taça uma terceira vez. Mas, desta feita, o falcão atirou-se em voo para cima dele, derramando todo o conteúdo daquela fresca água. Transtornado, o Czar não aguentou mais e agarrou o falcão pelo pescoço, matando-o.
Preparava-se para encher o copo uma vez mais quando, apressadamente, se lhe abeirou um dos seus servos, gritando:
Majestade, Majestade! Não bebeis dessa água. É uma nascente envenenada!
O Czar arremessou o copo, enquanto uma lágrima lhe rolava pela face. E disse, amargurado:
Quantos erros, quantas terríveis injustiças somos capazes de cometer por via da ira ou da precipitação! O meu fiel amigo, por três vezes me salvou a vida! E, como é que eu o recompensei?!
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Adaptação de um conto de Tolstoi
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sexta-feira, janeiro 07, 2005

Perspectiva para uma Morte pt.3

Há muito que o carro parou. As vozes, essas, desapareceram. Abandonaram-me. Contrariamente ao que previa, a luz ténue da chama do isqueiro não me acalmara. Muito pelo contrário. Ali estava, vítima de sequestro, trancado na mala de um automóvel, sem saber o motivo, ferido, enjoado e, distinguia agora, rodeado por dezenas e dezenas de amarelecidos recortes de jornais. Centenas, provavelmente. De súbito algo prendeu-me a atenção. Algo maligno. Cruel. Todos, mas todos os velhos recortes, sem excepção, relatavam o mesmo. Os crimes. “Os crimes”- murmurei. Fechei os olhos por momentos.
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Pensamento

“O homem fraco teme a morte, o desgraçado chama por ela enquanto o valente a procura. Só o sensato a espera. “

Benjamin Franklin



quinta-feira, janeiro 06, 2005

Perspectiva para uma Morte pt.2

O carro segue em velocidade proibida. Desperto com um safanão provocado por uma curva apertada. Dói-me a cabeça. Apesar da escuridão na mala do carro sei que é sangue que me escorre. Recordo-me do olhar dela. De terror. Recordo-me do vulto que a seguia. Do que bramia. “É este o animal, puta?” Recordo-me do taco de baseball. Do baque seco ao embater-me na nuca. Depois....nada. Malditos encontrões. Levo a mão ao bolso mas não o alcanço. Outra curva. Sou projectado como um boneco de trapos contra a chapa da mala. Enjoo. Preciso de luz. Ouço vozes no interior do veículo que continua a avançar furiosamente. Discutem. Não compreendo o que dizem mas percebo claramente a exaltação. A rádio debita o tema “A View to a Kill” dos velhos Duran Duran num volume desmesuradamente alto. A View to a Kill (Perspectiva para uma morte)!! Maldita ironia. Tento chegar ao bolso novamente. Sei que guardo um isqueiro algures. Preciso de luz rapidamente. Há muito que a minha pulsação disparou. Calma, preciso de manter a calma. Lá dentro as vozes continuam enraivecidas. Que diabo, onde é que coloquei o maldito?? De súbito uma travagem brusca atira-me violentamente contra as costas dos bancos traseiros do veículo. As dores são mais que muitas. O carro deteve-se mas os berros no interior não. Atordoado alcanço por fim a algibeira. Hei-lo. Bendito isqueiro. Agora é definitivo. Não deixarei de fumar nunca!
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Perspectiva para uma Morte


Lembro-me do grito. Lembro-me do grito agora. Do eco que causou. É sempre assim que tudo começa. Ou que acaba. Com um grito. E depois o silencio abrupto. Lembro-me do pânico no olhar dela. Sim, a culpa fora toda dela. Por causa do seu desleixo jaziam agora dois corpos no chão gorduroso daquela velha fábrica de peixe. O cheiro nauseabundo, combinação bárbara de óleo de velhas maquinas há muito em desuso, fezes de animais sem dono e de sangue quente acabado de verter, promovia impiedosa e gratuitamente a náusea.
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Terça-feira, 23 horas, percorria, aliás como habitualmente àquela hora, as ruas da cidade. Uma cidade como outra qualquer. De cores difusas e cortinas cerradas. De alarmes abafados e segredos gritantes. Podia ser a tua cidade, creio. O som das minhas passadas serena-me. São seguras apesar da noite alta. E como gosto do eco que provocam. Engrandece-me. Um vigilante, penso, sinto-me um. De súbito, da neblina o pânico ganha forma num grito. “Ajude-me! Ele quer matar-me.” É sempre assim que tudo começa. Com um grito.
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