O Puzzle pt.3
Como que, tomado por vida própria, meu olhar abandonou o miúdo sem face, planou sob as demais crianças e suavemente pousou nos outros elementos vivos da gravura. Os cães. Os cães malhados. Estes, não haviam dúvidas, saltitavam alegremente, por entre os catraios. Rolavam na relva galhofeiros tornando suas caudas felpudas, espanadores desenfreados. Via agora perfeitamente. Os cães estavam radiantes. Desmesuradamente radiantes. A minha pulsação disparou. Devolvi de novo o olhar ás crianças da gravura. Mais uma vez. "Que seja a última", murmurei. Começava a ser primordial descobrir o que se estava a passar ali mesmo à minha frente. Que raio de enredo era este onde me via envolvido? Pela primeira vez considerei que, a ausência da peça chave deste puzzle, não teria sido um lapso, mas antes, uma jogada, a meu ver, de muito mau gosto, da empresa fabricante deste quebra-cabeças. Mas porque que raio não me ofereceram antes um puzzle do Mordillo? Ou outra coisa qualquer, meu Deus? Uma bola de futebol, um disco, um instrumento musical, qualquer coisa, mas nunca, mas mesmo nunca, um puzzle incompleto com um miúdo sem face, crianças assombradas e cães a bailar, num conjunto sinistro, que me atormentava cada vez mais, como o pior dos pesadelos.
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