segunda-feira, janeiro 10, 2005

O Czar e o Falcão

Um certo dia, o Czar da Rússia aprestou-se para uma caçada, levando no ombro – como era seu hábito – um falcão que nunca o abandonava.
Depois de uma árdua cavalgada e já tendo abatido muita caça, o Czar procurou uma sombra aprazível onde pudesse descansar. Sentia a garganta seca e rezava por encontrar uma fonte onde pudesse matar aquela sede.
Esporeou o cavalo e procurou ainda por longo tempo, até que encontrou uma bica de água escorrendo de uma penedia. Colocou uma pequena taça sob o fio que caía e esperou que enchesse. Mal se preparava para beber, e ao pegar no copo, eis que o falcão esbracejou as asas e o entornou.
O Czar quis encher de novo a taça e, mal achou que já havia o suficiente para beber, uma vez mais o falcão, abrindo as asas em jeito de levantar voo, a entornou.
Contrariado, o Czar encheu a taça uma terceira vez. Mas, desta feita, o falcão atirou-se em voo para cima dele, derramando todo o conteúdo daquela fresca água. Transtornado, o Czar não aguentou mais e agarrou o falcão pelo pescoço, matando-o.
Preparava-se para encher o copo uma vez mais quando, apressadamente, se lhe abeirou um dos seus servos, gritando:
Majestade, Majestade! Não bebeis dessa água. É uma nascente envenenada!
O Czar arremessou o copo, enquanto uma lágrima lhe rolava pela face. E disse, amargurado:
Quantos erros, quantas terríveis injustiças somos capazes de cometer por via da ira ou da precipitação! O meu fiel amigo, por três vezes me salvou a vida! E, como é que eu o recompensei?!
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Adaptação de um conto de Tolstoi
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