Perspectiva para uma Morte
Lembro-me do grito. Lembro-me do grito agora. Do eco que causou. É sempre assim que tudo começa. Ou que acaba. Com um grito. E depois o silencio abrupto. Lembro-me do pânico no olhar dela. Sim, a culpa fora toda dela. Por causa do seu desleixo jaziam agora dois corpos no chão gorduroso daquela velha fábrica de peixe. O cheiro nauseabundo, combinação bárbara de óleo de velhas maquinas há muito em desuso, fezes de animais sem dono e de sangue quente acabado de verter, promovia impiedosa e gratuitamente a náusea.
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Terça-feira, 23 horas, percorria, aliás como habitualmente àquela hora, as ruas da cidade. Uma cidade como outra qualquer. De cores difusas e cortinas cerradas. De alarmes abafados e segredos gritantes. Podia ser a tua cidade, creio. O som das minhas passadas serena-me. São seguras apesar da noite alta. E como gosto do eco que provocam. Engrandece-me. Um vigilante, penso, sinto-me um. De súbito, da neblina o pânico ganha forma num grito. “Ajude-me! Ele quer matar-me.” É sempre assim que tudo começa. Com um grito.
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