Perspectiva para uma Morte pt.2
O carro segue em velocidade proibida. Desperto com um safanão provocado por uma curva apertada. Dói-me a cabeça. Apesar da escuridão na mala do carro sei que é sangue que me escorre. Recordo-me do olhar dela. De terror. Recordo-me do vulto que a seguia. Do que bramia. “É este o animal, puta?” Recordo-me do taco de baseball. Do baque seco ao embater-me na nuca. Depois....nada. Malditos encontrões. Levo a mão ao bolso mas não o alcanço. Outra curva. Sou projectado como um boneco de trapos contra a chapa da mala. Enjoo. Preciso de luz. Ouço vozes no interior do veículo que continua a avançar furiosamente. Discutem. Não compreendo o que dizem mas percebo claramente a exaltação. A rádio debita o tema “A View to a Kill” dos velhos Duran Duran num volume desmesuradamente alto. A View to a Kill (Perspectiva para uma morte)!! Maldita ironia. Tento chegar ao bolso novamente. Sei que guardo um isqueiro algures. Preciso de luz rapidamente. Há muito que a minha pulsação disparou. Calma, preciso de manter a calma. Lá dentro as vozes continuam enraivecidas. Que diabo, onde é que coloquei o maldito?? De súbito uma travagem brusca atira-me violentamente contra as costas dos bancos traseiros do veículo. As dores são mais que muitas. O carro deteve-se mas os berros no interior não. Atordoado alcanço por fim a algibeira. Hei-lo. Bendito isqueiro. Agora é definitivo. Não deixarei de fumar nunca!
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