sexta-feira, junho 17, 2005

Entrevista do Rui Veloso ao Independente

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O INDEPENDENTE .............................Quinta 9 de Junho de 2005

(excerto de uma entrevista concedida por Rui Veloso a este semanário)


Vinte cinco anos depois, o que é feito do Chico Fininho, o “freak” que andava “com merda na algibeira”. Morreu de “overdose”, é arrumador de carros ou transformou-se num “yuppie”?
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Não sei...Alguns dos Chicos Fininhos que havia no Porto e em Lisboa infelizmente já morreram. Talvez outros sejam arrumadores de carros e um ou outro talvez tenha um emprego porreiro. Mas, em geral, aqueles que conheci não se deram muito bem.
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Ainda existem Chicos Fininhos? O que trariam hoje na algibeira?
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Uma pastilha de “ecstasy” e eventualmente uma pistola.

E o que aconteceu às rapariguinhas do “shopping”. Quem são elas hoje?
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Foram substituídas pelas imigrantes brasileiras e ucranianas. Essa letra retrata o processo de ascensão social no pós-25 de Abril. Nos últimos anos isto mudou muito.
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A rapariguinha do “shopping” do “Ar de Rock” trazia uma revista de bordados debaixo do braço... Hoje que revista seria?
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Talvez a “Cosmopolitan”, ou outra desse género que por aí há.
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Evoluímos pouco nesse aspecto?
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Evoluímos pouco em todos os aspectos. Passaram 30 anos desde o 25 de Abril e há muito que ainda não foi feito. Continuamos a cortar na cultura assim que há problemas. O fado é visto quase como música erudita quando não o é. É uma expressão popular de Lisboa. Uma expressão como os “blues” ou o “flamenco”. Até no fado nos pomos em bicos dos pés e pensamos que somos mais do que aquilo que somos. Portugal é um país periférico.
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Portugal é um país de inimputáveis?
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De certa forma, sim. O exemplo tem de vir de cima. Quando há pessoas, lá em cima, que não pagam impostos e que acumulam pensões, ao mesmo tempo que pedem sacrifícios aos outros, é natural que o povo diga: “Ai sim? Então espera lá.” Há muito tempo que tenho esperança nos vários governos e acabo desiludido. Não percebo como é que 30 anos depois do 25 de Abril ainda não houve um pacto de regime para as questões fundamentais. Eles sentam-se lado a lado, comem todos juntos, são amigos, bebem copos, se calhar até vão às meninas juntos...
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Somos calões?
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Sim, porque não somos bem orientados. Não há liderança.
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Falta-nos sensibilidade cultural?
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Falta-nos cultura. Um dos enormes erros deste país é ter uma vergonha enorme da sua cultura popular, que deve ser a base de sustentação de todas as outras manifestações.
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Faz sentido, por exemplo, que o preço dos discos inclua 21 por cento de IVA enquanto o dos livros tem apenas cinco?
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Isso acontece porque existe a ideia de que ler é uma actividade mais nobre. Mas não me parece que tenha grande lógica um mau livro ter cinco por cento de IVA e um bom disco 21.
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Nos últimos anos foi um dos principais defensores das quotas para a música portuguesa nas rádios. A necessidade de um limite mínimo não é sinal de que algo está mal? Faltam programas de autor?
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Claro que faltam. Foi com os programas de autor que me fui interessando pela música. Hoje não há nada. Só sei do que vai acontecendo porque tenho curiosidade e assino revistas estrangeiras.As novidades não chegam cá. E não me parece que a política das rádios de passar música dos anos 80, como os Duran Duran, seja a mais correcta. Aliás, o que se passa com os Duran Duran é extraordinário. São uma das piores bandas de sempre, nunca fizeram uma música de jeito e agora são glorificados na nossa imprensa. Está tudo maluco! Os Duran Duran? Os Spandau Ballet ainda vá. Eram melhorzinhos, o gajo cantava bem e não era um parvalhão.Agora os Duran Duran?
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Isso acontece porquê?
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São modas.
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