A Transferência (na 3ª pessoa)
A estória que me proponho a contar, poderá parecer-vos demasiado irreal para ser verdadeira. Mas vão por mim. Astronauta não mente!
Um caríssimo colega de profissão, possivelmente aborrecido com a paisagem inóspita do pólo Sul, requereu transferência para uma plataforma orbital mais a norte do planeta Terra. Aparentemente, uma tarefa simples, não? Bastaria um requerimento devidamente preenchido, uma boa vontade das chefias, e logo logo, este colega Astronauta estaria a desfrutar das lindíssimas auroras boreais do Pólo Norte. Mas, infelizmente para ele, não foi isto que sucedeu. E passo a explicar. A vida como Astronauta não está fácil nos dias que correm. O governo insiste em considerar-nos um “monstro” demasiado pesado para suportar. Não há dia que passe em que não ouçamos falar em cortes estruturais, em salários congelados, em reformas mais tardias, e principalmente na inexistente progressão das carreiras. Assim sendo, actualmente, e contrariando muitas e precipitadas opiniões, ser-se funcionário do Estado, nomeadamente Astronauta, não é tão doce como possam imaginar. Mas voltemos ao colega. Como as hierarquias são para ser cumpridas, este, comunicou, de imediato, o seu intento, à superior directa: a Dr.ª Florbela. Ora, esta criatura, sobejamente conhecida por todo o Instituto Geral dos Foguetões (I.G.F.), pelo facto de utilizar, somente, um terço do cérebro, anuiu aos propósitos do camarada Astronauta, e de forma firme e concreta, assegurou-lhe, imperturbável: “Padeço de diarreias muito fininhas”.
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Primeira etapa ultrapassada. Próximo passo; reunião com a Directora de Núcleo dos Serviços Espaciais, Dr.ª Mariana. Nos corredores da base, as opiniões sobre esta senhora, são ambíguas. E nem ela própria saberá da total hipocrisia em seu redor. Provavelmente coraria, com os impropérios e queixas sussurradas, pelas suas chaperons oficiais, Hermínia e Idália, sobre a sua pessoa, à Dr.ª Alexandra, afastada, prematuramente, destes Serviços, de forma injusta e que não dignificaram em nada, a sua Directora. Talvez, e isto não passa de mera suposição da maioria dos Astronautas do Instituto Geral dos Foguetões, o maior defeito da Dr.ª Alexandra, foi o de não ter um sogro bem cotado no meio. Mas avancemos para terrenos menos lodosos. Frente a frente com a Directora do Núcleo dos Serviços Espaciais, o colega Astronauta, expôs, pela segunda vez, sua pretensão. Contar-me-ia mais tarde, ter ficado animado com a receptividade desta, e, confiante, revelou ter a certeza de que, a Directora Mariana, tudo faria para que a sua transferência fosse tratada com a maior celeridade. Obviamente, franzi o sobrolho. “És do bom tempo”, pensei, enquanto lá do fundo da sala, a inocente, Dr.ª Florbela, com o rato do PC, encostado à orelha esquerda, clarificava: “ São líquidas, pelo amor de Deus, são fezes muito líquidas. Aquosas. ”
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Continuando a subir pelos degraus hierárquicos deste Instituto Público, restava somente, por ora, ao colega Astronauta, entregar o requerimento ao Excelentíssimo Senhor Director do Instituto Geral dos Foguetões, o Dr. Queijas. O topo da escada hierárquica! O cume do Instituto. A coroa real da família Astronauta.
Mas como descrever este homem? Como descrever o homem que está à frente do magnânime I.G.F? Parece-te difícil, paciente leitor? Enganas-te então. Este homem reúne consensos. Não há opiniões divergentes, não há incertezas, há sim, dados concretos, provas materiais, convicções estóicas. O Dr. Queijas é o maior!! Todos, mas todos os Astronautas sagazes, existentes em terra ou em órbita, vivos ou mortos, não tem pejo em considerar este homem, o maior asno do Universo.
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O facto deste espécime não olhar nos olhos do seu semelhante enquanto mantém uma conversa, de revelar total falta de carácter nas opções que toma, de mentir desavergonhadamente aos funcionários e principalmente por lamber as bordas do secular ânus da Directora do Núcleo Dr.ª Mariana, ajudaram-no a conseguir esta propalada fama pelos corredores do Instituto. Uma das questões primordiais que cada Astronauta colocou a si próprio, pelo menos uma vez na vida é “Como é que este maneirinho chegou onde chegou?” Há quem fale da “Opus Dei”. Mas, com receio de estar sob escuta do Vaticano, não vou aprofundar este tema.
Bom, certo é que o colega entregou o requerimento a este Dr. da Mula Ruça, tendo-lhe sido prometido, e isto já era sabido por todos, que, aquando da fusão entre os dois institutos, o I.G.F., Instituto Geral dos Foguetões com o Instituto Superior do Sistema Solar (I.S.S.S), anunciada para breve, este, comprometia-se, durante a elaboração das novas listagens dos funcionários, colocar de imediato, o camarada Astronauta, na plataforma mais a Norte, como este havia requerido. Tudo OK, não fosse esta, mais uma das mentiras do Queijas.
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1 ano e 2 meses passaram e nada. O colega Astronauta esperou e desesperou mas o deferimento não saiu. Para piorar a situação, foi-lhe retirada a plataforma orbital, que geria com competência e eficácia, pela sórdida Directora Mariana, (por motivos que ainda hoje o colega diz não compreender) e colocado numa secretária, à parte dos restantes Astronautas, sem telefone e praticamente sem trabalho, a não ser a miserável anotação de dados no imprescindível sistema informático criado pela competente Dra. Alexandra, que viria a ter como prémio, como já em cima referi, uma facada nas costas, perpetrada pala manhosa Mariana, perante o olhar mortiço do Queijas.
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Soube posteriormente, que por esta altura, o caríssimo colega teve um pequeno quid pró quo com uma Astronauta da Sede do Instituto, sito na Avenida da Boavista, muito por culpa de um telefonema mal entendido, mas que viria a originar o afastamento dos dois. Não aprofundo mais este assunto, pois o camarada fez-me jurar pela Graça do Senhor não revelar o nome da colega e mais acrescentou que estas feridas tem, por norma, o seu tempo para sarar, e o que está agora desfeito, irá ser consertado, assim que convier a ambos (assunto este já abordado num anterior post de titulo “Fácil/Difícil”).
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Para além da fusão dos institutos, agora com a sigla I.S.S., Instituto Steinn Sigurdsson, em honra do excelso professor do Departamento de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Pensilvânia, tudo se manteve na mesma. O Queijas continuou a afocinhar a fronha no traseiro hercúleo da Mariana, que por sua vez, manteve o mesmo número de amizades no Instituto: 0 (zero), enquanto a Florbela amarga ainda de dores hemorroidais que a impedem de manter as pernas fechadas, enquanto sentada.
Agastado com toda esta burocracia, senti, no entanto, que o camarada Astronauta não iria desistir. E assim foi. Agora no I.S.S., a força do Queijas era muito menor, havendo, acima dele, pessoas competentes e idóneas capazes de dar uma resposta eficaz a um pedido de mobilidade interna, tão simples como este. E é desta forma que o Dr. Linhares da Silva, Director Adjunto do Instituto, homem sério e líder incontestado, entra nesta estória tão labiríntica, onde o firme leitor se encontra enredado.
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Ora, contactado pelo colega Astronauta, este senhor, mostrou, desde o início, a sua intenção em deferir o assunto de uma vez por todas. Chamou ao seu gabinete o Dr. Queijas, que apavorado com tamanha convocação, enfrentou durante os 10 dias seguintes, o mais faustoso ataque de flatulências descrito nos anais da História do Instituto. O que se passou lá dentro só os dois saberão, no entanto, cá fora o cheiro era tão demolidor que, no espaço de meia hora o edifício foi evacuado e selado. Os céus interditados a aviões de pequeno porte, e a chegada do INEM, assinalada com “vivas” e “aleluias” por parte dos Bombeiros que fraquejavam consoante aproximação à sala onde a reunião decorria.
Por fim as portas abriram-se e, no meio da neblina intestinal, apareceu tal qual D. Sebastião de Portugal, o Dr. Linhares da Silva, majestoso no seu fato de Astronauta, impermeável à fragrância mortal do Queijas. Ao seu lado, qual farrapo humano, vinha o maneirinho, amarelo de tanta soltura.
Um caríssimo colega de profissão, possivelmente aborrecido com a paisagem inóspita do pólo Sul, requereu transferência para uma plataforma orbital mais a norte do planeta Terra. Aparentemente, uma tarefa simples, não? Bastaria um requerimento devidamente preenchido, uma boa vontade das chefias, e logo logo, este colega Astronauta estaria a desfrutar das lindíssimas auroras boreais do Pólo Norte. Mas, infelizmente para ele, não foi isto que sucedeu. E passo a explicar. A vida como Astronauta não está fácil nos dias que correm. O governo insiste em considerar-nos um “monstro” demasiado pesado para suportar. Não há dia que passe em que não ouçamos falar em cortes estruturais, em salários congelados, em reformas mais tardias, e principalmente na inexistente progressão das carreiras. Assim sendo, actualmente, e contrariando muitas e precipitadas opiniões, ser-se funcionário do Estado, nomeadamente Astronauta, não é tão doce como possam imaginar. Mas voltemos ao colega. Como as hierarquias são para ser cumpridas, este, comunicou, de imediato, o seu intento, à superior directa: a Dr.ª Florbela. Ora, esta criatura, sobejamente conhecida por todo o Instituto Geral dos Foguetões (I.G.F.), pelo facto de utilizar, somente, um terço do cérebro, anuiu aos propósitos do camarada Astronauta, e de forma firme e concreta, assegurou-lhe, imperturbável: “Padeço de diarreias muito fininhas”.
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Primeira etapa ultrapassada. Próximo passo; reunião com a Directora de Núcleo dos Serviços Espaciais, Dr.ª Mariana. Nos corredores da base, as opiniões sobre esta senhora, são ambíguas. E nem ela própria saberá da total hipocrisia em seu redor. Provavelmente coraria, com os impropérios e queixas sussurradas, pelas suas chaperons oficiais, Hermínia e Idália, sobre a sua pessoa, à Dr.ª Alexandra, afastada, prematuramente, destes Serviços, de forma injusta e que não dignificaram em nada, a sua Directora. Talvez, e isto não passa de mera suposição da maioria dos Astronautas do Instituto Geral dos Foguetões, o maior defeito da Dr.ª Alexandra, foi o de não ter um sogro bem cotado no meio. Mas avancemos para terrenos menos lodosos. Frente a frente com a Directora do Núcleo dos Serviços Espaciais, o colega Astronauta, expôs, pela segunda vez, sua pretensão. Contar-me-ia mais tarde, ter ficado animado com a receptividade desta, e, confiante, revelou ter a certeza de que, a Directora Mariana, tudo faria para que a sua transferência fosse tratada com a maior celeridade. Obviamente, franzi o sobrolho. “És do bom tempo”, pensei, enquanto lá do fundo da sala, a inocente, Dr.ª Florbela, com o rato do PC, encostado à orelha esquerda, clarificava: “ São líquidas, pelo amor de Deus, são fezes muito líquidas. Aquosas. ”
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Continuando a subir pelos degraus hierárquicos deste Instituto Público, restava somente, por ora, ao colega Astronauta, entregar o requerimento ao Excelentíssimo Senhor Director do Instituto Geral dos Foguetões, o Dr. Queijas. O topo da escada hierárquica! O cume do Instituto. A coroa real da família Astronauta.
Mas como descrever este homem? Como descrever o homem que está à frente do magnânime I.G.F? Parece-te difícil, paciente leitor? Enganas-te então. Este homem reúne consensos. Não há opiniões divergentes, não há incertezas, há sim, dados concretos, provas materiais, convicções estóicas. O Dr. Queijas é o maior!! Todos, mas todos os Astronautas sagazes, existentes em terra ou em órbita, vivos ou mortos, não tem pejo em considerar este homem, o maior asno do Universo.
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O facto deste espécime não olhar nos olhos do seu semelhante enquanto mantém uma conversa, de revelar total falta de carácter nas opções que toma, de mentir desavergonhadamente aos funcionários e principalmente por lamber as bordas do secular ânus da Directora do Núcleo Dr.ª Mariana, ajudaram-no a conseguir esta propalada fama pelos corredores do Instituto. Uma das questões primordiais que cada Astronauta colocou a si próprio, pelo menos uma vez na vida é “Como é que este maneirinho chegou onde chegou?” Há quem fale da “Opus Dei”. Mas, com receio de estar sob escuta do Vaticano, não vou aprofundar este tema.
Bom, certo é que o colega entregou o requerimento a este Dr. da Mula Ruça, tendo-lhe sido prometido, e isto já era sabido por todos, que, aquando da fusão entre os dois institutos, o I.G.F., Instituto Geral dos Foguetões com o Instituto Superior do Sistema Solar (I.S.S.S), anunciada para breve, este, comprometia-se, durante a elaboração das novas listagens dos funcionários, colocar de imediato, o camarada Astronauta, na plataforma mais a Norte, como este havia requerido. Tudo OK, não fosse esta, mais uma das mentiras do Queijas.
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1 ano e 2 meses passaram e nada. O colega Astronauta esperou e desesperou mas o deferimento não saiu. Para piorar a situação, foi-lhe retirada a plataforma orbital, que geria com competência e eficácia, pela sórdida Directora Mariana, (por motivos que ainda hoje o colega diz não compreender) e colocado numa secretária, à parte dos restantes Astronautas, sem telefone e praticamente sem trabalho, a não ser a miserável anotação de dados no imprescindível sistema informático criado pela competente Dra. Alexandra, que viria a ter como prémio, como já em cima referi, uma facada nas costas, perpetrada pala manhosa Mariana, perante o olhar mortiço do Queijas.
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Soube posteriormente, que por esta altura, o caríssimo colega teve um pequeno quid pró quo com uma Astronauta da Sede do Instituto, sito na Avenida da Boavista, muito por culpa de um telefonema mal entendido, mas que viria a originar o afastamento dos dois. Não aprofundo mais este assunto, pois o camarada fez-me jurar pela Graça do Senhor não revelar o nome da colega e mais acrescentou que estas feridas tem, por norma, o seu tempo para sarar, e o que está agora desfeito, irá ser consertado, assim que convier a ambos (assunto este já abordado num anterior post de titulo “Fácil/Difícil”).
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Para além da fusão dos institutos, agora com a sigla I.S.S., Instituto Steinn Sigurdsson, em honra do excelso professor do Departamento de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Pensilvânia, tudo se manteve na mesma. O Queijas continuou a afocinhar a fronha no traseiro hercúleo da Mariana, que por sua vez, manteve o mesmo número de amizades no Instituto: 0 (zero), enquanto a Florbela amarga ainda de dores hemorroidais que a impedem de manter as pernas fechadas, enquanto sentada.
Agastado com toda esta burocracia, senti, no entanto, que o camarada Astronauta não iria desistir. E assim foi. Agora no I.S.S., a força do Queijas era muito menor, havendo, acima dele, pessoas competentes e idóneas capazes de dar uma resposta eficaz a um pedido de mobilidade interna, tão simples como este. E é desta forma que o Dr. Linhares da Silva, Director Adjunto do Instituto, homem sério e líder incontestado, entra nesta estória tão labiríntica, onde o firme leitor se encontra enredado.
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Ora, contactado pelo colega Astronauta, este senhor, mostrou, desde o início, a sua intenção em deferir o assunto de uma vez por todas. Chamou ao seu gabinete o Dr. Queijas, que apavorado com tamanha convocação, enfrentou durante os 10 dias seguintes, o mais faustoso ataque de flatulências descrito nos anais da História do Instituto. O que se passou lá dentro só os dois saberão, no entanto, cá fora o cheiro era tão demolidor que, no espaço de meia hora o edifício foi evacuado e selado. Os céus interditados a aviões de pequeno porte, e a chegada do INEM, assinalada com “vivas” e “aleluias” por parte dos Bombeiros que fraquejavam consoante aproximação à sala onde a reunião decorria.
Por fim as portas abriram-se e, no meio da neblina intestinal, apareceu tal qual D. Sebastião de Portugal, o Dr. Linhares da Silva, majestoso no seu fato de Astronauta, impermeável à fragrância mortal do Queijas. Ao seu lado, qual farrapo humano, vinha o maneirinho, amarelo de tanta soltura.
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Não demorou muito para que este Dr. Polichinelo corresse para as saias da Dra. Mariana e lhe contasse a desautorização a que tinha sido sujeito. Esta, solidária, confortou-o no seu regaço cantando-lhe: “Nana, nana, meu menino, Qu'a mãezinha logo vem, Foi lavar os teus paninhos (bem sujinhos), Ao reguinho de Belém.”
O Queijas estava possesso! A azia que nutria pelo Dr. Linhares e pelo colega Astronauta era demasiado dolorosa de suportar. Precisava de mais do que uma simples canção de embalar. Precisava de expulsar a sua raiva. Vai daí, pam, pam, soltou mais duas das dele!!! A Florbela, que passava do lado de fora do gabinete, pensou para si mesma: “Ai que saudades em largar-me assim sem deixar molho nos cueiros!”
A Mariana esteve doze minutos inconsciente!
.
O fim desta estória aproxima-se a passos largos. Com a eficiência do Dr. Linhares da Silva, aquilo que já parecia impossível, estava prestes a tornar-se realidade e a alegria voltara de novo ao rosto do colega Astronauta. Nos Serviços Espaciais, a vida encontrara, novamente, a sua rotina peculiar. A Directora Mariana mantinha o ritual do pequeno-almoço com as duas infelizes. A Florbela, quando não estava a fumar, acendia um cigarro e o Queijas, apesar das duas queixas apresentadas pelos vizinhos à QUERCUS, manteve-se a morar no mesmo edifício, embora a providência cautelar, o impeça de ter as janelas de casa abertas.
.
Até que chegou o dia em que o telefone tocou. Embora não o conseguisse explicar, li na expressão pesada do colega Astronauta, que aquela não era uma chamada qualquer. Este pressentia que aquele telefonema era primordial. Quase um ponto de partida para o resto da sua vida. Hesitou. Comecei, eu mesmo, a ficar agitado. “Atende o telefone! Atende o telefone!”murmurei por entre os dentes. Passara quase um ano e meio desde que este se tinha sentado no gabinete da Dr.ª Mariana indicando-lhe sua intenção em ser transferido, e hoje, do outro lado da linha, daquele ruidoso aparelho, informações importantes aguardavam para lhe ser transmitidas e o camarada não se movia, quase nem respirava. “Elliot”, chamei-o. O colega, saindo do transe, levantou os olhos na minha direcção e, simplesmente, lhe fiz figas com os dedos. Ele assentiu com a cabeça, acercou-se do telefone e lentamente levantou o auscultador.
.
Lembro-me bem dos segundos seguintes. Enquanto o colega falava ao telefone, recordei o seu primeiro dia nos Serviços Espaciais. A sua postura, aparentemente, arrogante, e que no início tinha incomodado alguns dos Astronautas mais complexados, nada tinha a ver com a pessoa que representava. Um tipo afável, bem-humorado, com uma notória paixão pelo sexo feminino, grande apreciador de música e de cinema, e com quem tive muitas e agradáveis conversas sobre os mais variados assuntos. Um tipo que adorava uma bela estória. Tanto de a contar como de a ouvir. E mesmo em temas, aparentemente, sem interesse ou ausentes de qualquer utilidade, este, colocava-lhes uma carga dramática tão forte que transformava pequenos pedaços de informação inóspitos, nas mais curiosas aventuras que alguém se haveria de lembrar. O Elliot Duran era assim e agora ali estava ao telefone, com um sorriso cada vez mais alargado, enquanto eu me dava conta, de começar já a sentir saudades por aquele fulano.
Não demorou muito para que este Dr. Polichinelo corresse para as saias da Dra. Mariana e lhe contasse a desautorização a que tinha sido sujeito. Esta, solidária, confortou-o no seu regaço cantando-lhe: “Nana, nana, meu menino, Qu'a mãezinha logo vem, Foi lavar os teus paninhos (bem sujinhos), Ao reguinho de Belém.”
O Queijas estava possesso! A azia que nutria pelo Dr. Linhares e pelo colega Astronauta era demasiado dolorosa de suportar. Precisava de mais do que uma simples canção de embalar. Precisava de expulsar a sua raiva. Vai daí, pam, pam, soltou mais duas das dele!!! A Florbela, que passava do lado de fora do gabinete, pensou para si mesma: “Ai que saudades em largar-me assim sem deixar molho nos cueiros!”
A Mariana esteve doze minutos inconsciente!
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O fim desta estória aproxima-se a passos largos. Com a eficiência do Dr. Linhares da Silva, aquilo que já parecia impossível, estava prestes a tornar-se realidade e a alegria voltara de novo ao rosto do colega Astronauta. Nos Serviços Espaciais, a vida encontrara, novamente, a sua rotina peculiar. A Directora Mariana mantinha o ritual do pequeno-almoço com as duas infelizes. A Florbela, quando não estava a fumar, acendia um cigarro e o Queijas, apesar das duas queixas apresentadas pelos vizinhos à QUERCUS, manteve-se a morar no mesmo edifício, embora a providência cautelar, o impeça de ter as janelas de casa abertas.
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Até que chegou o dia em que o telefone tocou. Embora não o conseguisse explicar, li na expressão pesada do colega Astronauta, que aquela não era uma chamada qualquer. Este pressentia que aquele telefonema era primordial. Quase um ponto de partida para o resto da sua vida. Hesitou. Comecei, eu mesmo, a ficar agitado. “Atende o telefone! Atende o telefone!”murmurei por entre os dentes. Passara quase um ano e meio desde que este se tinha sentado no gabinete da Dr.ª Mariana indicando-lhe sua intenção em ser transferido, e hoje, do outro lado da linha, daquele ruidoso aparelho, informações importantes aguardavam para lhe ser transmitidas e o camarada não se movia, quase nem respirava. “Elliot”, chamei-o. O colega, saindo do transe, levantou os olhos na minha direcção e, simplesmente, lhe fiz figas com os dedos. Ele assentiu com a cabeça, acercou-se do telefone e lentamente levantou o auscultador.
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Lembro-me bem dos segundos seguintes. Enquanto o colega falava ao telefone, recordei o seu primeiro dia nos Serviços Espaciais. A sua postura, aparentemente, arrogante, e que no início tinha incomodado alguns dos Astronautas mais complexados, nada tinha a ver com a pessoa que representava. Um tipo afável, bem-humorado, com uma notória paixão pelo sexo feminino, grande apreciador de música e de cinema, e com quem tive muitas e agradáveis conversas sobre os mais variados assuntos. Um tipo que adorava uma bela estória. Tanto de a contar como de a ouvir. E mesmo em temas, aparentemente, sem interesse ou ausentes de qualquer utilidade, este, colocava-lhes uma carga dramática tão forte que transformava pequenos pedaços de informação inóspitos, nas mais curiosas aventuras que alguém se haveria de lembrar. O Elliot Duran era assim e agora ali estava ao telefone, com um sorriso cada vez mais alargado, enquanto eu me dava conta, de começar já a sentir saudades por aquele fulano.
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2 Comments:
Que bela história :)
Qualquer comparação com a coincidência é pura realidade!
P.S. O problema da dita Drª Florbela continua... aqui... no Instituto Geral dos Foguetões... infelizmente...
tou impressionada!
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