quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Uma História Simples

Apesar de ter saído há pouco tempo de casa dos meus pais, 3 anos aproximadamente, há sempre uma nostalgia ao voltar a entrar nela. A sensação de estar no sítio mais seguro do mundo, rodeado pelas paredes que me viram crescer, é óptima. E naquela noite não foi diferente. A minha mãe telefonara-me, convidando-me a lá ir jantar, pois, na sua opinião, o meu pai andava um pouco abatido. Evidentemente, anui ao seu pedido e, não deveria passar muito das 8 horas, quando por fim, cheguei.
Meus pais são relativamente jovens. Minha mãe conta com 56 primaveras e o meu pai atingiu a bonita idade dos 65. Ambos saudáveis, activos e muito acarinhados pelo meio vicinal. Naquela noite, porém, o meu pai estava deveras deprimido. Sentado à mesa de jantar, de olhar vago, parecia nem notar a nossa presença, as nossas conversas. Apenas o corpo dele marcava figura, pois o espírito vagueava por entre quadros de memórias passadas. Meu pai sempre viveu a vida com muita intensidade e energia e é agora, com pesar, que vê os anos passarem por ele, sem a possibilidade em lhes pôr travão. Minha mãe entreolhava-me, como que a pedir que lançasse assuntos para a mesa que lhe despertassem a atenção e eu assim fazia. Puxei pela ultima vitória do Benfica, continuei pelo futebol recordando a atitude bastante “à lá Mourinho” do Couceiro no discurso de apresentação, lancei-me pelos terrenos da politica, pelos boatos e pelo baixo nível que tem caracterizado esta campanha, inclusive questionei-o se já estava a par do boato (mais um) referente a um determinado jogador do FCP (que eu não vou reproduzir aqui no blog para não ajudar a alastrar este tipo de “desinformação”), mas ele nada. Apesar de mais atento, mantinha a sua presença ainda desfocada aos nossos olhos. Serei assim um dia, pensei? Quase que juro que sim. Se há facto que me assuste imenso é o de envelhecer. Assusta-me e comove-me. Não consigo ouvir ninguém para cima dos 70 anos, contar façanhas realizadas enquanto jovem, sem ficar com um nó na garganta. Nem que as ditas estejam repletas de humor e interesse. Não consigo dissociar deste emissor, o facto dele estar na recta final desta corrida sem vencedores de nome Vida. E da mesma forma, também não acredito que, alguém que tenha visto um filme como o “Uma história simples” do Lynch, sem se emocionar, tenha coração. Nisto sou imensamente parecido com o meu pai. Prossegui, como diria o Markl, com todos os “desbloqueadores de conversa” que me vinham à mente. Abordei a interessante mostra sobre o Titanic no parque da Alfandega do Porto, da exposição da Paula Rego em Serralves, das intermináveis obras na Casa da Musica, da repetida nomeação do Clint Eastwood para melhor actor do ano, do concerto dos irlandeses U2 agendado para Agosto, mas nada.
Até que, quando já me preparava para lançar a toalha ao chão, um pequeno milagre aconteceu. A minha mãe delicadamente perguntou-lhe: “Não notas nada de diferente no arroz de hoje?” Fez-se silêncio. Meu pai mirou-a. Eu mirei o meu pai de soslaio e ambos, simultaneamente, levamos uma garfada à boca. “Sim, realmente está diferente. Está mais saboroso. Que lhe puseste?” Eu estava incrédulo. Meu pai sorria. Poderia ter continuado noite adentro tentando encontrar algo que o motivasse, algo que lhe despertasse a atenção, mas com certeza que meus esforços seriam infrutíferos. No entanto, bastou a esposa, a sua melhor amiga, fazer aquela pergunta tão inocente quanto trivial, para este sair do transe em que se encontrava e retorquir-lhe. Sorri de extrema felicidade enquanto a minha mãe lhe respondia: “Juntei-lhe 1 caldo Knorr!”
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2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Mas que delícia, Rui. Além do facto idisputável que um caldo Knorr faz milagres (ainda te hei-de enviar a minha história da passagem de ano de 2004), há certamente coisas que põem um bom homem em sentido, e esta é uma delas, ou melhor, duas: a amante esposa e a comidinha feita por ela! Espero que o motivo da depressão tenha passado!

6:01 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Não sei se a história é verdadeira, mas pode muito bem sê-lo! Tenho uma certa inveja (da dita saudável)desses momentos que passas com os teus pais, adorava ainda poder vivê-los com os meus pais juntos e felizes. Mas tenho que agradecer o facto de ainda estarem vivos, embora com vidas separadas! Obrigada por partilhares esses momentos!
Bjs

3:06 p.m.  

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