quarta-feira, fevereiro 02, 2005

O Código D'Avintes

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De tempos a tempos é editado um livro que, sem que ninguém o faça prever, chega ao cobiçado patamar dos best-sellers do ano. Ora, no transacto 2004, isso voltou a acontecer, tendo trazido para a ribalta, o propalado Código D’Avintes. Não há fila dos correios, paragem de autocarro, ou reunião de condomínio, em que não se fale deste sucesso literário. O autor, Leonel Correia, natural de Cinfães, tornou-se, da noite para o dia, objecto de interesse por parte dos media, e é adiantado já, pela imprensa cor-de-rosa, como umas das presenças possíveis na segunda edição da Quinta das Celebridades.
Mas o que tornou, de facto, este romance, num fenómeno de vendas a nível nacional? A resposta não será tão difícil como à partida poderá parecer. Leonel Correia tem a coragem de colocar o dedo na ferida e esclarecer assuntos, considerados tabu por muitos, e servi-los num estilo muito próprio, envolvidos numa cadência quase colegial, e sem as comiserações habituais dos debutes literários.
O Código D’Avintes é rico em temas polémicos mas de grande curiosidade popular tais como as secretas Confrarias da Broa de Avintes, a nunca confirmada Associação dos Columbófilos Amadores de Oliveira do Douro, as misteriosas Amigas da Petisqueira “Taberna do Sacristão” e talvez o maior enigma de sempre, aflorado em muitas outras obras, mas nunca encarado da forma frontal como Leonel Correia o faz; a Demanda do Santo Galo. É deveras brilhante este fragmento do livro, e que passo a citar: “...o cabrão do galo fazia tamanha chinfrineira que começou a ser imperial ao insone povo de Avintes matar o bicho. Não havia era maneira de o apanhar, pois, este, era arisco e espertalhão, fugindo para o pátio murado da D. Graciana sempre que pressentia o perigo. ”
Impressionante!!
De forma a enriquecer um pouco este meu blog, viajei até Cinfães com o intuito de entrevistar Leonel Correia, mas fui informado pela vizinha, que o jovem escritor, se teria deslocado a S. João da Madeira, ao baptizado da sobrinha Natália. Voltei no Domingo seguinte.
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-Caro Leonel, como surgiu esse interesse pela escrita?
-Olhe, meu amigo, confesso-lhe que foi algo que me atingiu já em fase adulta pois, enquanto catraio, nunca gostei de ler. Veja o Lusíadas por exemplo, aquilo é para miúdos impressionáveis. Ele é Sereias, é Ilha dos Amores, é Adamastores. Uma fantasia pegada. Eu podia ser puto mas não era besta. No fundo, eu ansiava por outros assuntos. Ansiava por livros onde os sentimentos adultos fossem devidamente expostos, onde houvesse espaço para o crescimento intelectual e claro, onde os factos apresentados fossem confirmados com provas claras e irrefutáveis. Assim sendo, a primeira obra que me tocou realmente, foi “Diana, A Princesa do Povo”! Soberbo. Então para quem teve a sorte de, como eu, comprar a edição que trazia o single do Elton John, foi algo de inexplicável. Veja, ainda hoje fico com pele de galinha só de me lembrar. A partir deste livro, não tive mais parança. Li o do Vale e Azevedo, que me pareceu um pouco rebuscado, mas que aconselho, o da ex-mulher do Tallon, acabei de ler há dias o do Carlos Cruz e comecei agora o do Frota.
-E Saramago?
-Santinho!
-Errr....não percebeu, referia-me ao nosso prémio Nobel, Saramago!
-Santinho, já é o segundo. Você não está bem agasalhado e depois apanha uma gripe que até rodopia. Sabe que aqui em Cinfães não é como no Porto. Aqui gela-se.
-Avancemos... Leonel, fala-se numa adaptação para o cinema.
-Olhe, essa conversa já me irrita. Fala-se muito, mas obra é que nada. Na minha opinião, aquilo precisa mais do que uma adaptação. Por mim era um tecto novo. Eu, inclusive, já falei por duas vezes com o Presidente da Junta, apontei-lhe os buracos por onde a chuva entra, e isso não está certo, as pessoas pagam o seu bilhete, tem por isso, direito, a ver o filme nas melhores condições!
-Não me referia propriamente ao cinema aqui de Cinfães, mas ao Cinema enquanto arte. Já pensou num realizador? António Pedro Vasconcelos, José Fonseca e Costa, Manoel de Oliveira, autor do maravilhoso Aniki-Bóbó?
-Moreira! É Manuel Moreira, mas já fechou, por causa daquilo das mães de Bragança. Fui lá duas vezes e não posso dizer que achasse o estabelecimento maravilhoso. Não era mau, quer dizer, a Niki era realmente boa no bóbó, as luzes e tal, mas preferia de longe o Starlight, em frente à esquadra. Essa sim, era uma boite de luxo.
-Leonel, para terminar, tem já alguma ideia para o seu próximo livro?
-Sei lá!
-Ah, esse já tem dono. Margarida Rebelo Pinto. Ó Leonel, porque não escrever sobre o amor?
-O amor é fodido!
-Pois, se é para isso, mais vale estar quieto, pois receio que o MEC não apreciasse a ideia.
-Você é bom nisto, conhece todos os nomes!
-Saramago!
-Irra homem, vou ver se lhe arranjo um Ilvico, pois essa gripe ainda o mata!
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