O Puzzle pt.final
Até que.... não,....... a resposta não podia ser assim tão simples!? Elementar, até! Inadvertidamente, tinha acabado de decifrar o enigma do jogo. Era mais do que óbvio! O motivo da alegria dos cães, a estranheza do olhar dos miúdos focada no rapaz sem face, tudo se unia agora em perfeita harmonia. Sorri com a descoberta, embora aturdido, com a simplicidade desta. Mas tinha a certeza, o garoto, cuja ausência da peça do puzzle, me impedia de lhe descortinar feições, estava a tocar um instrumento musical! Daí, não lhe ver também as mãos que levava à cara. Uma flauta, possivelmente, ou até mesmo uma harmónica. Mas era, sem dúvida, isso. O miúdo era musico, e espantava a plateia de crianças, com a execução de melodias perfeitas que maravilhavam os cães que saltavam felizes, por entre elas. Que gravura magnifica!
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Até que, e agora vem a parte curiosa da estória. Passada mais de uma década, numa chuvosa tarde de Inverno, arrumava, preguiçosamente, o quarto, quando, no fundo do antigo baú, por entre revistas de B.D e Legos, encontro a velha caixa do puzzle. Parei por momentos. Confesso que hesitei em pegar-lhe. Os anos tinham passado por ambos. Eu já não era o miúdo ansioso, ávido por respostas e ela já não brilhava como outrora mas o destino decidira juntar-nos de novo. Agachei-me para a agarrar. Era capaz de jurar que ouvia o meu pulsar cardíaco no silencio do quarto. Pousei-a na cama enquanto as memórias me assaltavam a mente. Esta era a caixa do célebre puzzle. Abri-a e espreitei o seu escuro interior. Vazio. Se calhar não fazia mais sentido guarda-la no velho baú. Suspirei e joguei-a decididamente para o canto do quarto, onde já se amontoavam outras velharias inúteis. E como explicar-vos o que sucedeu a seguir? Revejo esta cena, em câmara lenta, ainda hoje. O esvoaçar da caixa que, sobrevoou o quarto de uma ponta à outra, até embater silenciosamente num conjunto de velhos cadernos, fazendo saltar de dentro dela, um pequeno pedaço de cartão, que rodopiou delicadamente antes de se deter imóvel no chão do quarto.
O mundo parou à minha volta. A peça! A peça que faltava. Mas como? Era impossível ter-me passado despercebida durante todos estes anos. Mas de facto ali estava. Ali, no chão do meu quarto! E agora? Aproximei-me lentamente do pedaço inerte, baixei-me para lhe pegar constatando o irónico facto de que o lado virado para mim era exactamente o da parte de trás da imagem. Mas de súbito senti-me a congelar. As pontas dos meus dedos tocavam já no apático pedaço de puzzle, mas sentia nos restantes músculos do corpo uma resistência inexplicável.
O que me iria revelar este último bocado de uma gravura, que sempre conheci, incompleta? Ou então, o que me iria tirar? Sim, o que me iria tirar? Seria a verdade mais interessante do que a estória que a mim próprio contara mil e uma vezes? Valeria a pena concluir esta demanda? Quereria o miúdo sem cara que eu lhe conhecesse, finalmente, as feições? Recuei. Meus dedos afastaram-se lentamente do pequeno pedaço de cartão enquanto me erguia.
Olhei uma vez mais para o puzzle das mil peças, ou melhor, das 999 peças, emoldurado na parede do meu quarto, sorri e afastei-me confiante.
O mundo parou à minha volta. A peça! A peça que faltava. Mas como? Era impossível ter-me passado despercebida durante todos estes anos. Mas de facto ali estava. Ali, no chão do meu quarto! E agora? Aproximei-me lentamente do pedaço inerte, baixei-me para lhe pegar constatando o irónico facto de que o lado virado para mim era exactamente o da parte de trás da imagem. Mas de súbito senti-me a congelar. As pontas dos meus dedos tocavam já no apático pedaço de puzzle, mas sentia nos restantes músculos do corpo uma resistência inexplicável.
O que me iria revelar este último bocado de uma gravura, que sempre conheci, incompleta? Ou então, o que me iria tirar? Sim, o que me iria tirar? Seria a verdade mais interessante do que a estória que a mim próprio contara mil e uma vezes? Valeria a pena concluir esta demanda? Quereria o miúdo sem cara que eu lhe conhecesse, finalmente, as feições? Recuei. Meus dedos afastaram-se lentamente do pequeno pedaço de cartão enquanto me erguia.
Olhei uma vez mais para o puzzle das mil peças, ou melhor, das 999 peças, emoldurado na parede do meu quarto, sorri e afastei-me confiante.
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